Palavra do Presidente

Márcio Rufino B Jr

Residente de Cirurgia Cardiovascular do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
Presidente da ABRECCV

Poder tocar o coração, sentir suas batidas na palma da mão, e ter este órgão como a matéria prima do nosso serviço, é um privilégio de poucos. É sagrado. Na minha opinião, dentre todas as outras, a cirurgia cardiovascular é a especialidade mais bonita. Ao fazer a escolha por esta nobre área médica, no entanto, surgem desafios.

O primeiro, e talvez o mais difícil, é a espera.

Somos convidados a respeitar a complexidade dos procedimentos e a gravidade dos pacientes, observando os longos tempos cirúrgicos. Com o tempo, damos os primeiros pontos e suturas. Depois, surge a oportunidade de encontrar a veia safena, disseca-la, prepara-la, e aos poucos vamos refinando os movimentos. O aperfeiçoamento vem naturalmente com o trabalho, e sempre queremos mais oportunidades, novas tarefas que geralmente não vem na velocidade que queremos.

Não basta sentir-se pronto à uma nova fase dentro de campo. O preceptor precisa estar convencido da sua capacidade e, à sua maneira, até mesmo o paciente precisa colaborar. Com resiliência passamos horas em jejum, superamos frustrações dia após dia, muitas vezes observamos a cirurgia por trás dos ombros de um cirurgião, até que enfim surge a oportunidade de participar um pouco mais.

Abrir o primeiro tórax, retirar a primeira mamária, controlar os tremores durante a confecção das primeiras bolsas de aorta é especial. Outras etapas durante o preparo do doente são avançadas, e vem o sentimento de que somos parte importante do processo. Passam dias, meses e anos. Fica claro para todos e para nós mesmos o quanto evoluímos até ali. Cedo ou tarde, entretanto, vem à tona aquele primeiro sentimento de estar pronto a uma nova etapa.

Então, desejamos o mais importante: participar do tempo principal. Afinal, foi para isso que escolhemos este caminho; para sermos cirurgiões cardiovasculares.

Esse é o principal momento na nossa formação, o ponto onde podemos nos perder, mirando o alvo errado.

De fato, importantes etapas são frequentemente subestimadas, como: a compreensão profunda da circulação extracorpórea; os mecanismos de proteção miocárdica; conceitos claros de eletrofisiologia cardíaca; as doenças cardíacas; o manejo das drogas vasoativas e a execução das técnicas cirúrgicas. Ou seja, o tempo principal exige uma imensa responsabilidade, de preparo técnico, mental e intelectual, por vezes menosprezado pela nossa ansiedade do fazer.

Fica claro para nós que este médico que queremos nos tornar exige uma formação completa e muito mais complexa do que imaginávamos. A despeito do nosso esforço e dedicação, respeito pela cirurgia, do nosso preparo e espera sem fim, muitas vezes a oportunidade não vem.

Em alguns centros de formação falta o fornecimento de uma base teórica mais sólida, com aulas e apresentação de artigos e diretrizes, discussão de casos clínicos e etc. Para outros falta mesmo é a meritocracia e a oportunidade do residente avançar e concluir etapas em sua formação. Enfim, cada um com sua particularidade.

Para buscar alguma mudança em nossa formação, entender as reais necessidades de cada residente e lutar por mudanças em todo país, o primeiro passo é estarmos unidos e de maneira organizada. Unidos podemos dialogar sobre os problemas em cada residência e entende-los de maneira mais integral, propor e cobrar mudanças, lutar para que melhorias sejam mantidas e sempre otimizar o aprendizado em todo o país. Com esse objetivo a Associação Brasileira de Residentes de Cirurgia Cardiovascular - ABRECCV - foi fundada. Com o apoio da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, queremos contribuir à melhor formação de todos os residentes desta especialidade em nosso país.

Empreenderemos esforço para que os egressos das diferentes Escolas/Serviços tenham uma base científica e operacional comum, mais regular e submetida a mecanismos de controle elaborados de maneira participativa e democrática. Temos, dentre outros, como plano de ação a criação e funcionamento da Escola Preparatória em Cirurgia Cardiovascular, com aulas expositivas e material didático disponibilizados via Internet apenas para os associados. 

Esta Diretoria tem dispendido grande esforço para a sua efetiva implementação.

Propomos também o controle pela SBCCV das competências e participação em cirurgias de todos os residentes de programas credenciados, bem como a realização de uma prova teórica anual comum para estes residentes (com quatro níveis de dificuldade, compatíveis com o ano/ciclo cursado); prova esta com caráter meramente informativo, nota sigilosa e comparação não-compulsória.

Como residente, e atual presidente desta associação, coloco-me à disposição para ouvir os problemas  relacionados à residência de cada colega, e buscar meios de melhorar sempre a nossa formação. Deixo claro ainda que, toda ajuda é bem vinda, e com prazer receberemos quem quiser contribuir conosco.

À disposição,

 


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